sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A realidade implacável


O último ato é sangrento, por mais bela que seja a comédia em todo o resto. Lança-se finalmente terra sobre a cabeça e aí está para sempre.
Pascal, Pensées

1.

As peças de T.S.Eliot não causam tanta admiração no meio literário como seus poemas e seus ensaios. Desconhece-se o motivo; certamente, Murder in the Cathedral não tem o impacto estético de The Waste Land, mas não se pode negar que The Cocktail Party possui trechos que ficam lado a lado com certas estrofes de Four Quartets. Eliot era um poeta completo e um escritor cauteloso; além disso, sua preocupação moral o levava à procura de novas formas de expressão para que a mensagem transmitida em sua obra fosse a mais clara possível. O teatro foi apenas mais um meio encontrado para o drama que já existia em seus versos e suas reflexões.


Isso não significa que Eliot encontrou sua forma dramática plena e acabada – como, por exemplo, ocorreu com sua estréia na poesia com The Love Song of J. Alfred Prufock, em 1915. Um dos elementos mais comoventes na leitura das suas peças é o modo como Eliot luta para encontrar uma forma adequada e também diferente de expressar o mesmo drama que o obceca há anos. Se, ao lermos The Waste Land ou Ash-Wedensday, temos o sentimento de um vento gelado que trespassa nossos ossos, como as palavras de aviso de um profeta dos velhos tempos, em The Cocktail Party, por exemplo, temos um dramaturgo querendo nos chocar no meio de uma simples comédia de costumes, mas repleta de avisos e sobressaltos. É como se o profeta Jeremias simplesmente tivesse se transformado em Noël Coward, com um pouco de sotaque cockney no vaticínio.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O sofrimento das ruínas


Já que está na moda citar Breaking Bad, a série que todos afirmam ser a melhor de todos os tempos (simplesmente esqueceram-se de The Wire, concebida por David Simon e Ed Burns, mas sempre soubemos que a memória é de uma infidelidade inapelável), acompanharemos o ritmo dos trendy topics e mostrar que, além de estarmos antenados, também estamos dentro dos parâmetros da “educação clássica” e citaremos, como abertura desta resenha, o poema declamado por Brian Cranston (aliás, Walter White) no final de um dos episódios catárticos da derradeira temporada, ambos chamados Ozymandias, escrito por Percy Shelley (o marido de Mary) e que fecha com uma das estrofes mais assustadoras já escritas:

"My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye Mighty, and despair!"
Nothing beside remains. Round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare
The lone and level sands stretch far away.' 

            Pois esta foi a impressão que me veio ao terminar de ler o livro do “intelectual israelense e arquiteto” (also sprach Wikipedia) Eyal Weizman, The lesser of all possible evils – Humanitarian violence from Arendt to Gaza, publicado nos EUA e na Inglaterra pela Verso Books (a Boitempo deles): a de que quem olha demasiado para as ruínas só tem o desespero como alternativa.

            Tal como um “rei dos reis” do pensamento crítico, Weizman tem as credenciais impecáveis que precisa para dar autoridade moral ao argumento de seu livro. Além de ser intelectual e arquiteto, é autor de dois livros que elaboram um pouco aquilo que se chamaria “arquitetura forense”: Hollow Land: Israel´s architecture of occupation e Mengele´s Skull: The advent of forensic aesthetics (este escrito em parceira com Thomas Keenan, diretor do programa de direitos humanos do Bard College de Nova York). Como se isso não bastasse, foi professor de arquitetura na Academy of Fine Arts de Viena, faz parte de um coletivo artístico chamado “Descolonizando a arquitetura”, sediado em Beit Sahour, na Palestina, e integra grupos de pesquisas sobre os problemas surgidos pela ocupação israelense em território palestino, em especial Gaza. Seu fundamento teórico são os pensadores chamados de “pós-modernos”, que ainda acreditam que a História tem um sentido definido e uma divisão simétrica em períodos que precisamos decorar – para depois tudo ficar embaralhado pela nossa ausência de perspectivas.

            Enfim, o passado de Weizman não o condena; pelo contrário, o absolve para falar como quiser sobre o assunto de The lesser of all possible evils – o fato de que há uma relação íntima e escusa entre a intervenção humanitária de governos que pretendem ajudar países que precisam urgentemente de socorro e a intenção totalitária desses mesmos governos ao usarem a violência para impedir uma catástrofe maior, sem se preocuparem com o número de vidas humanas que serão destruídas na realização desse ideal. Para quem executa tal meta como se fosse uma missão de vida, a justificativa de tais atos seria a escolha pelo “mal menor” (the lesser evil). De acordo com Weizman, esse foi o procedimento feito pelas organizações que tentaram impedir a fome na Etiópia na década de 80 (mas apenas a aumentaram ao insistir na deportação de famintos que não tinham para aonde ir), da mesma forma que ocorreu nas duas guerras contra o Iraque, a invasão no Afeganistão e, last but not least, a ocupação da Palestina por Israel.

            O título do livro é uma referência ao famoso ditto do “melhor de todos os mundos possíveis”, declamado pelo personagem Pangloss no romance Candido, ou: o otimismo (1759), de Voltaire, por sua vez inspirado no filósofo Gottfried Wilheim Leibniz (1646-1716), que, ao dizer uma frase que era uma variação apócrifa dessa afirmação, mal sabia que irritaria o escritor francês quarenta e um anos depois da sua morte, quando ocorreu o famoso terremoto de Lisboa – e assim Voltaire acreditou que tal arremate era uma espécie de ofensa pessoal dirigida a toda Humanidade e resolveu satirizar o pensador de Leipzig em seu pequeno livro, difamando a sua figura pelos séculos seguintes.

            Obviamente, Weizman aceita o lado de Voltaire e esquece-se do de Leibniz. Segundo o arquiteto, as intervenções humanitárias sempre são apoiadas pelo princípio do “mal menor” e os exércitos de governos como os EUA e Israel o usam para aproveitá-las e enfim realizarem os seus planos “totalitários” de colonização e dominação. O raciocínio até pode ter alguma verdade factual, mas, como toda crítica política que se preocupa com afirmações bombásticas, se sustenta mais por uma analogia que pode cair no anacronismo do que pelo rigor de um pensamento que tenta se adequar a uma realidade objetiva. No caso, a analogia com a expressão retirada do romance de Voltaire implica também o detalhe que o francês não entendeu o alemão e assim iniciou-se um dialogue de sourdes que prejudica a Filosofia até hoje. Quando Leibniz escreveu a famosa afirmação, ele mal sabia que iria ocorrer um terremoto em Lisboa no ano de 1755; apenas discutia um problema filosófico seríssimo, a Teodicéia, que preocupava tanto os católicos como os protestantes que se matavam na Europa onde tentava se arrumar em algum “ecumenismo” possível (uma utopia que jamais foi alcançada, como já percebemos). Leibniz refletia sobre o Mal maiúsculo, o Mal metafísico do qual seremos todos vitimas mais cedo ou mais tarde; o que Voltaire faz em seu Candido é banalizar esse problema e torná-lo específico a um momento histórico que o afligia – a justificativa de uma catástrofe que não podia ser compreendida somente por meios racionais e humanos.

            O nosso “arquiteto e intelectual” sofre dessa mesma banalização. Ele quer entender uma situação extrema que o perturba como ser humano e talvez como judeu – o fato de que seu país só pode sobreviver se permanecer dentro do território de outro povo. Afinal, toda a lógica de seu livro culmina para a situação absurda que se instalou entre Israel e Palestina; e é algo muito próximo de um telos em que todas as suas ilações e silogismos só terão sentido se o leitor perceber que a guerra entre esses dois povos tão próximos e tão distantes é o evento primeiro de toda a História que vivemos atualmente (isto é, segundo Weizman).

            Para criar uma carapuça de respeitabilidade em seu argumento, usa-se um leque variado de autores, filósofos e escritores. A referência mais constante, como já indica o subtítulo do livro, é a velha e boa Hannah Arendt. Digo “velha e boa” porque não há carne de vaca mais usada para justificar qualquer coisa no mundo do pensamento do que a obra de filósofa que tentou refletir sobre o Mal ao narrar como foi o julgamento de Adolf Eichmann nas cortes israelenses durante a década de 1960. Arendt foi a pensadora mais iminente (não necessariamente, a melhor) sobre o tópico do totalitarismo no século XX; e, sem dúvida, seus livros são o exemplo de alguém que tentou refletir honestamente sobre as desgraças que ocorreram ao seu redor. Mas também falhou miseravelmente – e nunca demonstrou aquela humildade que a verdadeira filosofia pede quando se percebe que talvez as suas ideias não correspondam à realidade. Pelo contrário: sustentou toda a sua teoria da “banalidade do mal” em função de uma “vida da razão” que, para ela, deveria dignificar o ser humano, quando, na verdade, o rebaixava ainda mais – já que qualquer um sabe que a razão (no caso, a ratio imanente que surgiu com os estoicos e que teve o seu auge com Descartes) não é o modo principal de como se reflete e compreende as vicissitudes da nossa existência (sim, pois existe também a pistis, mas quem se importa com isso hoje em dia?).

Se isso não fosse suficiente, há o uso equívoco do termo “totalitarismo”, como se fosse semelhante ao “autoritarismo”, quando, na verdade, o primeiro refere-se a governos que usam do seu maquinário político para mudar a estrutura da natureza humana, enquanto o segundo usa da força militar e da autoridade da coerção para impor uma ordem específica em uma situação circunstancial de desordem (que, contudo, pode ser estendida conforme os caprichos de quem está no poder – e aí está a armadilha).

            É claro que Weizman não está preocupado com essas sutilezas. O que ele toma emprestado de Arendt é a diferença entre “recusa” (refusal) e “recuo” (withdraw) quando ela tenta discriminar, em seu livro Eichmann em Jerusalém, se os conselhos judeus colaboraram com o extermínio nazista ao apelarem justamente para o raciocínio do “mal menor” ao enviarem alguns judeus para os campos de concentração para salvar a maioria dos outros judeus. Essa diferença conceitual é usada para descrever a atitude da organização Medicins sans frontiers (Médicos sem fronteiras) perante a fome na Etiópia, evento que deu fama ao rockeiro decadente Bob Geldof na década de 80, graças à criação do evento supermidiático Live Aid – e do qual ninguém sabe até hoje aonde foram parar as receitas desse empreendimento; para o MSF, incentivar a deportação dos etíopes para fora do país só aumentava a catástrofe, enquanto as outras organizações humanitárias, sempre com o “mal menor” em vista, não percebiam que faziam justamente o que o governo ditatorial da Etiópia queria, ao contribuir para um expurgo étnico que faria o poder totalitário aumentar ainda mais sob a população restante. A atitude do MSF de se opor à tamanha loucura não era uma “recusa” de querer ajudar, acusação que a maioria dos governos ocidentais e outras ONGs fizeram contra seus membros com a ajuda da imprensa; era mais um “recuo” de querer preservar o que se dava para fazer como verdadeira ajuda, mantendo a dignidade da vida humana mesmo em condições inimagináveis para que isso ocorra, em uma “vida nua” que o filósofo italiano Giorgio Agamben já nos alertava em seu ciclo de estudos chamado Homo Sacer, como o paradigma atual da nossa convivência social.

            Dessa forma, Weizman constrói lentamente o conceito de “arquitetura forense”, em que a abstração de modelos arquitetônicos, como mapas e maquetes, substituem a realidade e se tornam os próprios paradigmas de decisão judicial para casos espinhosos – como os da ocupação israelense no território palestino, em particular na região de Gaza. Para o arquiteto, o método da “arquitetura forense” é o auge do argumento falacioso do “mal menor”, já que ele se pergunta, usando desta vez uma indagação de Wittgenstein ao olhar para uma maquete que reproduzia um trágico acidente de trânsito: “Mas onde está a dor?”.

            A dor, meu caro leitor, pode ser encontrada na triste história de Marc Gelasco, antigo consultor do Pentágono que elaborou instruções minuciosas durante a segunda Guerra do Iraque para que o exército americano atingisse apenas algumas construções de determinadas formas para que as perdas humanas tivessem a meta de “trinta mortes”. Se esse limite fosse excedido, pedir-se-ia permissão oficial ao presidente dos Estados Unidos para que houvesse a continuação do ataque. Quando isso ocorria, as instruções eram mais claras ainda: dever-se-ia atacar o prédio ou a casa de tal ângulo e com tal inclinação para que a sustentação do imóvel desabasse de uma forma que prejudicasse o indivíduo sem que ocorresse uma morte dolorosa. Qualquer erro nesse sentido não estava previsto ou então não tinha sido calculado conforme o rígido programa estabelecido pelos militares.

            Atormentado pela culpa de ter colaborado direta ou indiretamente com a morte de vários civis iraquianos, Gelasco resolveu mudar de lado. Foi aceito em um programa do Human Rights Watch e tornou-se um consultor que reconstituía como as ruínas de habitações podiam contar a história de uma guerra. Suas palestras eram marcadas pela estranha ausência da “questão humana”; geralmente, ele narrava a destruição de uma batalha não por meio de uma mulher abandonada no centro de uma fotografia, mas sim preocupando-se mais com o cenário ao fundo, em especial um prédio completamente devastado em que podia-se contar como foi a queda de um míssil conforme a posição de uma pilastra ou a cor da poeira que se alastrava pelo território. Este procedimento de análise era a “arquitetura forense” em sua máxima sofisticação: vivenciava-se a guerra pelos detritos que sobraram, nunca pelos relatos de quem sobreviveu para contar qualquer espécie de história.

            Weizman parece, a princípio, compreender o dilema de Marc Gelasco, mas no final coloca-o ao lado dos carrascos, afirmando peremptoriamente de que “hoje só os criminosos conseguem solucionar o seu próprio crime”. Afinal, tanto a intervenção humanitária como o totalitarismo da guerra são os dois lados da mesma moeda – e ambos têm o mesmo fundamento ideológico: o argumento do “mal menor”. Ainda assim, o mal está feito – e mais: será feito de qualquer maneira. O toque irônico (e melancólico) de como termina a história de Gelasco – que seria expulso do Human Rights Watch porque descobriram que ele teria um fetiche por souvenirs da Segunda Guerra Mundial, em especial a memorabilia nazista – sugere um Como Queremos Demonstrar que teria a função de um círculo perfeito, de um perfeito teorema geométrico. Afinal, trata-se de um livro de um arquiteto, não é mesmo?

            Aliás, um arquiteto com pretensões intelectuais – e aqui mora o perigo. Weizman não apenas tem a objetividade das medidas e dos ângulos ao seu lado – ele também tem a paixão enragé do intelectual militante, do sujeito que luta por uma causa justa. Além disso, tem a esgrima do bom argumentador. Contudo, isso não é o bastante para convencer qualquer leitor que vive a realidade concreta e que não se baseia tão somente em abstrações bonitinhas e perfeitas, mesmo que estas finjam combater outras evanescências. O “mal menor” não é uma fuga ideológica; qualquer um sabe que é a escolha a se fazer quando nos deparamos com situações extremas que nem a nossa imaginação moral pode prever. E a guerra é justamente uma dessas situações – ainda mais quando se trata de uma guerra em que o inimigo é invisível e global (como é o caso do terrorismo) ou então quando o oponente não quer apenas lutar por um pedaço de terra, mas simplesmente eliminar a sua raça da face da Terra (como é o caso dos extremistas palestinos que não aceitam o fato de que Israel é, antes de tudo, um “estado judeu”).

            Nesse sentido, Weizman atua como se fosse uma espécie de inflitrado. Ele nasceu em Israel, mas em nenhuma linha de seu livro parece ter a compaixão necessária para seu próprio povo – somente para o “outro”. O governo hebreu é descrito nas entrelinhas igual a um representante claro do totalitarismo conceitualizado por Arendt  que, hélas, teria o “mal menor” como desculpa para as suas ações temerosas. O que Weizman se esquece é que, mesmo com todos os seus problemas, Israel é a única democracia plena no forno descontrolado que se tornou o Oriente Médio. Mas ele não é apenas um intelectual; é também um intelectual progressista que quer ficar de bem com a sua turma, em especial os iluminados de Nova York e Londres. Assim, por que se preocupar com o que está próximo de si mesmo? Vamos nos preocupar com os “outros”, com os coitados que vivem entre as ruínas em Gaza, ruínas que escondem vários túneis subterrâneos que levam armas e drogas para o Egito, Líbia, Iraque e Irã – esses países que desejam o melhor de todos os mundos possíveis para Israel. Para um arquiteto, acreditar nisso é uma omissão imperdoável. Já para um intelectual, tal crença é apenas uma forma de se proteger do outro “mal menor” – a fuga planejada de uma decadência espiritual.


            Logo, não seria exagero afirmar que Eyal Weizman é o Ozymandias do nosso mundo intelectual. Que ele será o próximo guru dos iluminados da academia e da imprensa (se já não o é), disso tenho certeza. Possui talento e determinação. Mas ele também deve tomar cuidado para não se apaixonar pelo sofrimento das ruínas. Caso contrário, quando for contemplá-las, sobrará apenas a vasta extensão do seu desespero.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O guerreiro silencioso

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É preciso não vê-la nem possuí-la,
mas procurá-la nesse vale obscuro.
Jorge de Lima, Livro de Sonetos.

1
O que mais surpreende na trajetória literária e pessoal de Osman Lins é a sua integridade moral. Vivendo no surgimento da onda concretista e da suposta contracultura dos anos 1960 e 70, Lins foi um escritor que conseguiu, com uma disciplina e um esforço inigualáveis, realizar uma obra que supera qualquer linha dos contemporâneos. Seus três principais livros – Nove, Novena (1966), Avalovara (1973) e A Rainha dos Cárceres da Grécia (1976) – representam uma ascensão ímpar na literatura brasileira, mas também explicita os problemas que nos consumiria até hoje: a questão da linguagem como raiz de uma realidade autônoma e se ela capta ou não as sinuosidades da alma humana sem corromper o mundo que nos cerca.

Para ele, ser um escritor em um mundo onde a opressão às atividades do Espírito é constante torna-se uma forma de resistência que exige do sujeito, antes de tudo, uma firme determinação psíquica. Mas esta não é a condição de qualquer um que queira atravessar este mundo com alguma dignidade? Esta é a questão que Osman Lins se propõe a meditar no seu primeiro grande romance, O Fiel e a Pedra (1961). Após ter lançado a novela O Visitante (1955) e o livro de contos Os Gestos (1957), ele finalmente descobriu o eixo temático de sua obra: a luta do indivíduo contra um meio que tenta aniquilá-lo a qualquer custo. O problema era qual seria a melhor forma para narrar este tema, desenvolvido na história de Bernardo Vieira Cedro e sua mulher Teresa, que são obrigados a encarar a malícia de Nestor Benício, assassino de seu irmão Miguel devido a uma herança de terras. Lins escolhe a forma do romance tradicional, mas o que importa ali não é o conflito exterior e sim as dimensões metafísicas que a decisão de Bernardo implica, se aceitar o jogo de Nestor Benício ou então matá-lo em legítima defesa.

domingo, 6 de julho de 2014

Lição de modelagem


The beast in me
Has had to learn to live with pain
And how to shelter from the rain
And in the twinkling of an eye
Might have to be restrained
God help the beast in me

Nick Lowe, cantado por Johnny Cash, "The beast in me".

Goethe afirmava em sua autobiografia, “Poesia e Verdade”, a seguinte máxima: “O homem que não é posto à prova não se instrui”.  No caso de Edward Bunker, ele próprio foi quem se pôs à prova, como se lê em cada linha de suas memórias, “Educação de um Bandido” (Education of a Felon, Editora Barracuda, 381 págs, R$ 43). E que educação: Bunker passou cerca de vinte anos em instituições penais para delinqüentes de alto risco, desde internatos militares, passando por cadeias estaduais, até chegar ao ápice da iniciação carcerária: a lendária prisão de San Quentin – simplesmente um dos lugares mais cruéis dos EUA, com uma população composta de psicopatas, estupradores e condenados à morte.

Isso não foi o bastante. Fora das prisões, enquanto cumpria condicional, Bunker planejava golpes, roubos, chantagens a cafetões, usava heroína, fumava seus baseados – e, principalmente, atacava sem piedade qualquer criminoso que colocasse sua vida em risco, seja na forma de delação, agressão ou picaretagem. Sem dúvida, não era um sujeito fácil de se lidar. Mas o que o torna diferente de outros ex-detentos – uma vez que saiu da prisão em 1975 e, desde então, viveu sua pacata vida de cidadão comum, sem provocar distúrbios à ordem pública? Como ele conseguiu escapar do cão negro dentro de sua alma, o mesmo cão que, de acordo com suas próprias palavras, o levava a realizar atos desesperados numa espécie de “possessão demoníaca”?

É aqui que Edward Bunker supera todas as expectativas, indo contra a famosa parábola do escorpião que jamais mudou sua natureza. Se há uma razão para ele ter escapado da auto-destruição é o fato de ter encontrado a única coisa que o tornava incomum e único: a vocação de escritor. Como escreveu William Styron, o autor de “A Escolha de Sofia”, que apoiou, com unhas e dentes, a obra literária de Bunker, a vida do ex-condenado de San Quentin (e depois, como se não bastasse, da prisão de Folsom, outra lenda criminal americana devido à brutalidade de seu sistema carcerário) é uma prova de que “a graça salvadora da arte” faz milagres – inclusive mudar o caráter de um criminoso que, segundo suas palavras, não passaria dos trinta anos de idade.

Ele morreria quarenta e um anos depois – no dia 19 de julho de 2005, casado com Jennifer Steele e pai de Brandon, um menino de oito anos. Foi o autor de quatro romances publicados em nove países, entre eles “Nem os Mais Ferozes” e “Cão Come Cão”, já lançados no Brasil, além de ser reconhecido mundialmente como “Mr. Blue”, o criminoso que era assassinado logo no início de “Cães de Aluguel”, de Quentin Tarantino, um fã confesso de seus livros. Ainda assim, como podemos entender tamanha mudança? Eis aí o mistério da vocação – e é nesse ponto que “Educação de um Bandido” transcende qualquer relato de detento, tão em voga na intelligensia brasileira. Não temos a história de um sujeito que culpa a sociedade, o mundo, mamãe, papai ou o Espírito Santo para justificar seus crimes. Bunker admite que suas ações criminosas faziam parte de sua personalidade – e que não havia outra maneira de lidar com isso exceto se aproximando lentamente do precipício. O que temos, isso sim, é o drama de um homem que, ao descobrir sua verdadeira vocação, luta a todo custo para agarrá-la, apesar das adversidades que o mundo e ele próprio criaram.

Ora, esta é a própria essência da vocação – estar sempre adiante, chamando o indivíduo para se aproximar, fingir que está próxima; e então, quando menos se espera, desvia-se, para estimulá-lo a ir adiante, para não petrificá-lo, torná-lo ciente de que a sua vida foi e será uma luta constante. O momento em que Bunker descobre a voz que o chama numa madrugada fria em San Quentin é um dos trechos mais pungentes de “Educação de um Bandido”. Ao ler um capítulo do relato de um condenado à morte, Bunker percebe que, se escrevesse o seu livro, teria pelo menos uma vantagem: teria tempo. E, a partir daí, as lembranças levantam o vôo de uma águia, pairando sobre o passado sem condescendência, narradas por um escritor que domina não só a arte da escrita e do estilo – conquistada a muito treino e custo –, mas transmite também uma experiência de vida que choca os fracos de coração.

O choque não se deve somente às atrocidades que ele viu no submundo do crime –relatadas com uma imparcialidade e uma lógica de quem conheceu as regras do jogo. Deve-se mais à visão de mundo peculiar de Bunker, a visão de um homem maduro que, por ter vivido de tudo na infância e na adolescência, sabe que, na verdade, não existe diferença entre o sujeito que vive dentro da prisão e o que vive fora dela. Todos nós somos uns condenados, é o que ele diz, e isso fica claro numa das cenas do livro: o encontro entre um jovem Bunker, recém-saído de um reformatório juvenil, e William Randolph Hearst, o magnata das comunicações.

É um momento impressionante – e narrado com a delicadeza que só os grandes escritores conseguem. Graças à ajuda de Louise Wallis, esposa de Hal Wallis, famoso produtor de cinema, Bunker consegue um emprego de motorista e a leva para visitar suas amigas de Hollywood, entre elas Marion Davis, a amante de Hearst. Enquanto as duas conversam, Bunker anda pelos jardins da mansão e se perde; ele encontra um velho sentado numa cadeira de rodas e decide perguntar onde elas estão. Somente após algum tempo percebe que o velho é ninguém menos que Hearst, completamente entrevado. “Não posso separar o que sabia do que aprendi depois, mas presumia sem pensar que gigantes nunca ficavam velhos e indefesos”, escreve Bunker. “Aquela foi verdadeiramente minha apresentação à eqüidade final da fragilidade e da mortalidade humanas”.

A sensação de exílio que fica ao ler cada palavra de “Educação de um Bandido” não é, em hipótese nenhuma, a sensação de fracasso – e sim a de uma perseverança ímpar, a perseverança de um escritor que venceu o seu demônio sem fazer concessões ao mundo. Mesmo com o vislumbre de seu norte, Bunker ainda passou por maus-bocados, todos provocados por sua natureza impulsiva. Contudo, se não fosse por essa mesma natureza, o mundo o teria trucidado sem misericórdia. Como o barro à espera da modelagem paciente, sabe que não teve muita sorte com suas experiências, mas também reconhece que foram elas que moldaram o futuro escritor. Este é um dos aspectos mais intrigantes da vocação: encontrá-la é, sem dúvida, uma coisa boa – ainda que, para concretizá-la, seja necessário trilhar um caminho dos infernos.

Mas, quando a vocação de Bunker finalmente frutifica, não há como negar a sabedoria do velho adágio: o de que na velhice temos três vezes o que se deseja na mocidade. As páginas finais de “Educação de um Bandido” mostram que qualquer teoria determinista é incapaz de apreender as surpresas do real. Aos sessenta e cinco anos, Bunker anda tranqüilamente pelas ruas de Paris e é reconhecido por alguns transeuntes; ele ainda tem a sensação de ser um pária, mas um pária que alcançou seu pequeno reino, um reino que lhe foi dado graças aos poderes da criação artística. E isso é o suficiente. Santo Agostinho dizia que a perseverança é uma virtude digna dos santos; claro que Edward Bunker não foi nenhum santo, mas o monstro dentro de sua alma deve ser encarado – e foi o que ele fez consigo mesmo, como exemplo de uma lição de modelagem. Nas três fotos suas publicadas na edição nacional de “Educação”, a primeira mostra um jovem com o olhar de uma fera, pronta para atacar; na segunda vemos certa serenidade na face, como se a consciência do mal fosse apenas o início de uma estranha purificação; e a terceira, a foto de capa, temos um sujeito fumando com prazer o seu charuto, despreocupado, o mundo adaptado ao seu ritmo e não o contrário.

Essas fotos são a prova de que o barro toma tempo para ser limado e que, somente então, o cântaro surge pleno e acabado. “Educação de um Bandido” é a odisséia de um homem partido em dois que lutou como poucos para recuperar a sua unidade. Apenas dessa forma, e graças à paixão pela escrita, ele acrescentou um pouco de poesia à dura verdade da vida. Porque, afinal, se o homem que não é posto à prova não se instrui, então Edward Bunker deve ser lido e respeitado pelo que foi: um verdadeiro mestre.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

A BELEZA DOS DIAS QUE SE FORAM



THE BEAUTY OF THE DAYS GONE BY 

(Van Morrison) 

When I recall just how it felt 
When I went walking down by the lake 
My soul was free, my heart awake 
When I walked down into the town 

The mountain air was fresh and clear 
The sun was up behind the hill 
It felt so good to be alive 
On that morning in spring 

I want to sing this song for you 
I want to lift your spirits high 
And in my soul I want to feel 
The beauty of the days gone by 

The beauty of the days gone by 
It brings a longing to my soul 
To contemplate my own true self 
And keep me young as I grow old 

The beauty of the days gone by 
The music that we used to play 
So lift your glass and raise it high 
To the beauty of the days gone by 

I'll sing it from the mountain top 
Down to the valley down below 
Because my cup doth overflow 
With the beauty of the days gone by 

The mountain glen 
Where we used to roam 
The gardens there 
By the railroad track 
Oh my memory it does not lie 
Of the beauty of the days gone by 

The beauty of the days gone by 
It brings a longing to my soul 
To contemplate my own true self 
And keep me young as I grow old 

And keep me young as I grow old 
And keep me young as I grow old 
And keep me young as I grow old 

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Afinal de contas, o que nos leva a continuar nesta vida, apesar das derrotas, das perdas e das poucas vitórias? O que é este impulso verdadadeiramente suicida de ir até o fim da linha, de ver o que está por trás do inevitável abismo, sabendo que teremos mais perdas, mais derrotas e quase nenhuma vitória? C.S. Lewis escreveu em seu livro Surprised by Joy que, quando crianças, experimentamos uma sensação desconhecida, que nos preenche por toda vida, apesar de sua brevidade. Ele acreditava que seu nome era nada menos que "alegria" e que, durante os anos de maturidade, conforme a marcha do tempo lhe parecia inexorável, sua principal motivação era captar novamente esse pequeno e afiado brilho que o acompanhara. Lewis sabia que esta "alegria" podia ser dolorosa (e era), mas que era a única que valia a pena persegui-la. 

Em seu álbum, Down the Road (2001), Van Morrison criou outra pérola do lirismo irlandês: a canção The Beauty of the Days Gone By. Embalado em um ritmo inspirado nas canções folclóricas e com um naipe de cordas de fazer chorar qualquer sujeito metido a Jonh Wayne, The Beauty é quase um poema musical em homenagem ao passado e à memória. O eu-lírico parece ser um homem que sofreu tanto, que passou por aquelas experiências que ninguém gostaria de passar, mas que está vivo e sabe muito bem a alegria que significa isso. O que o mantém vivo é a busca pela mesma alegria que C. S. Lewis também perseguia; sua maior arma nesta guerra é a sua memória que, como o próprio Van Morrison fala, it does not lie. E o resultado é a superação de todas as coisas ruins que aconteceram no passado porque, algum dia, teremos de nos libertar dele, e perceber a beleza oculta que as sombras queriam esconder; perceber que, apesar de toda a lição de trevas, a vida não é só isso e que a esperança é algo bom para se guardar. 

Entretanto, voltando à pergunta que nos motivou no início deste pequeno texto, o que nos leva a enfrentar o fim, apesar de tudo, apesar da impossibilidade de entender o outro, de fazê-lo feliz? E o Tempo - o que fazer com este monstro que nos ensina a agarrar cada instante passageiro como se fosse uma parte do eterno? Seria a alegria que Lewis tanto deseja rever, a mesma alegria de seus tempos de criança? Ou a certeza de que os dias que já se foram também têm uma beleza peculiar? Não podemos nos esquecer, neste caso, do famoso verso de Rilke: a beleza é o início do Terror, devido à sua rara intensidade e, portanto, à crueldade que nos espera. Ah, "alegria", "beleza", "memória", "terror" - palavras, palavras, palavras, já dizia Hamlet, todas querendo apreender o significado de algo que está além das nossas possibilidades, de nossas pífias intenções de uma busca pela felicidade nesta terra... O que nos motiva ir até o fim, amiguinhos, o que nos leva a enfrentar o abismo é a procura para encontrar o que se esconde atrás destas palavras. Mas o que fazer com esta casca precária de vida se elas são as únicas coisas que nos restam - junto com o Tempo, no seu misterioso desdobramento que o homem ainda não conseguiu decifrar, com sua multidão de causas que apelidamos de "acaso", que nos ajuda, de uma forma estranha, a suportar a saudade em nossa alma de um mundo onde não nos sentimos deslocados, onde passado, presente e futuro são uma perpétua possibilidade e onde a única coisa que esperamos é nos manter jovens de espírito, mesmo com a velhice do corpo acenando no meio do caminho?

terça-feira, 10 de junho de 2014

Entrevista para o site "O Camponês"

- Martim, considero você o aluno do Olavo de Carvalho que mais “deu certo”. O número de romances e romancistas, contos e contistas, filósofos e suas obras, músicos e diretores de cinema citados e comentados em seus textos é de deixar qualquer um de queixo caído. Como se deu seu processo de despertamento intelectual? Como foi a sua caminhada de formação até aqui?
Sua pergunta me parece, por assim dizer, demasiado “olavocêntrica”. É claro que Olavo de Carvalho me influenciou em várias coisas na vida, mas não em todas. Ainda assim, se há algum sucesso na minha “formação intelectual” – como você parece afirmar – deve-se mais aos meus pais do que propriamente a qualquer outro escritor ou intelectual. Foram eles que me ensinaram o valor do estudo e do conhecimento, do aperfeiçoamento constante e, sobretudo, de tentar ser justo com as pessoas, tratando-as pelo que são, nunca pelo que acham que deveriam ser de acordo com suas pretensões. Aplico este princípio às minhas próprias ações e pensamentos. Quem me conhece sabe que sou crítico e ácido com os outros, mas principalmente comigo mesmo.
Como se deu meu processo de despertar intelectual? Sempre gostei de literatura e de cinema. No início, fui um cinéfilo inveterado. Talvez a minha grande influência intelectual propriamente dita não tenha sido os textos de Olavo de Carvalho, como você supõe, mas sim os filmes de Stanley Kubrick, François Truffaut, Martin Scorsese, o Coppola de “O Poderoso Chefão”, “A Conversação” e “Apocalypse Now” – e depois Robert Bresson, pelo qual sou obcecado. Na literatura, tive minha imaginação moldada pelos livros de Sherlock Holmes, Dashiell Hammett, Raymond Chandler.
Meu despertar intelectual se deu justamente, creio eu, quando eu tinha uns 18 anos e percebi que o tempo é curto e a arte é mais curta ainda. Comecei a ler filosofia, poesia e livros de ciência política – muito Marx, pelo o qual fiquei enfeitiçado por duas semanas, muito José Guilherme Merquior, muito Sérgio Buarque de Holanda, muito Isaiah Berlin. Eu era um perfeito liberal, devoto à ideia de que o progresso humano era algo permanente. Depois, por meio de um texto de Olavo de Carvalho, fui apresentado à obra de Bruno Tolentino, que eu conheceria pessoalmente anos depois – e foi ela que, de certa forma, me fez reconhecer que existiam algumas coisas além da razão humana e do progresso tecnológico. Tudo emoldurado em uma linguagem poética de um virtuosismo técnico que até pode ter seus erros, como dizem alguns bizantinos por aí, mas que nunca teve medo de se arriscar. Assim, talvez possa se afirmar que sou muito mais influenciado por Tolentino do que propriamente pelo Olavo, ainda que sem este eu não tivesse conhecido aquele.
Minha caminhada de formação ainda não terminou – e falta muito para terminar, espero eu. Estou sempre aprendendo, ou pelo menos tentando aprender. Nassim Taleb diz o seguinte: “Se você tem a sensação de que não leu muito, é porque não leu o suficiente”. Sinto isso todos os dias. Ao mesmo tempo, faço o possível para ficar à margem de tendências estúpidas da moda. Como dizia Agostinho: “No estudo da criatura humana, não se deve exercitar uma curiosidade precária e vã, mas ascender em direção ao que é imortal e duradouro”.
- Você tem uma extensa experiência acadêmica. Passou pelos cursos de jornalismo, direito, letras e filosofia. Qual a importância da academia na sua carreira?
A academia – em especial, no Brasil – tem inúmeros problemas, mas ela é importantíssima porque estimula o sujeito – especialmente se ele faz parte deste gueto vitimista autointitulado “nova direita” – a entrar em debate com pessoas que pensam de forma completamente diferente da sua. Afinal, você não conseguirá colocar um país abaixo se não entender como os outros pensam, mesmo que não concorde com eles. A academia permitiria uma espécie de debate civilizado – que dá a impressão de ser polido e tolerante quando, na verdade, é quase uma esgrima feroz em que você pode sair mortalmente ferido. Entretanto, fugir da academia é também uma amostra de que você está fugindo dos combates necessários para a vida intelectual, pois esta só se frutifica no contraditório, desde que, claro, sejam respeitadas algumas regras básicas de decência. O problema da academia, seja no Brasil, seja no restante do mundo, é que, justamente, ninguém respeita nenhuma regra. A vida intelectual ficou relegada a uma discussão sobre “quem come quem” e “quem manda em quem”.
- Quais os seus autores favoritos?
Na literatura (prosa e poesia): Thomas Pynchon, Cormac McCarthy, Dante, Dostoievski, Euclides da Cunha, Alberto da Cunha Melo, Cecília Meirelles, Bruno Tolentino, John Milton, T. S. Eliot, W. B. Yeats, Geoffrey Hill, Ted Hughes, W. H. Auden, Joseph Brodsky, James Joyce, Thomas More, Marcel Proust, Antonio Lobo Antunes, Otto Lara Resende, Tom Stoppard, Osman Lins, Don DeLillo, Henry James, Thomas Harris, Martin Amis, James Ellroy, Mário Vargas Llosa. Na parte ensaístico-filosófica: Eric Voegelin, Joseph Epstein, Roger Kimball, Giorgio Agamben, Nassim Nicholas Taleb, Eric Weil, Joaquim Nabuco, João Pereira Coutinho, Mário Vieira de Mello, Ortega y Gasset, Olavo de Carvalho, Leo Strauss, Mario Ferreira dos Santos, Thomas Hobbes, Vaclav Havel, Paulo Mercadante, Antonio Paim. São tantos que eu acabo me esquecendo de quem pode ser importante.
- José Guilherme Merquior, há algumas décadas, disse que, no Brasil, escrevem mal “os cientistas sociais, os críticos literários, os políticos e, enfim, mas não por último, os escritores”. A coisa piorou? Os escritores brasileiros de hoje conseguem mostrar a realidade brasileira?
Se você quer saber mais sobre isso, sugiro que espere um pouco mais e compre o livro que estou escrevendo justamente sobre este tema e que, se Deus quiser, será publicado no próximo ano.
- Martim, você não é frequentador barato de redes sociais. Embora não seja um recluso como Salinger e Pynchon e, para citar mais um cara que você ama, Terence Malick (se o fosse não estaria dando essa entrevista), você acha que a solidão e o silêncio continuam essenciais para o escritor? Ou acha que é indispensável que o escritor esteja atento às inovações tecnológicas, à velocidade da informação e às inovações da rede (você acabou de dar um curso sobre Steve Jobs, é bom lembrar…)?
Aqui eu faço minhas as palavras de Edward Gibbon, o autor de Declínio e Queda do Imperío Romano: “A sociedade enriquece a mente, mas a solidão é a escola do gênio”.
- Você é fã do bom e velho rock’n’roll. Lou Reed, Dylan, Tom Waits, Cohen e outros são citados constantemente em seus textos e em naqueles “retratos” que você costuma fazer de forma tão bela. Rock’n’nroll é arte ou entretenimento?
Rock é uma arte menor, mas é arte. Esses cantores que você citou – e de quem gosto muito – são próximos daqueles trovadores que sabiam traduzir os anseios do coração humano com uma simplicidade que poucos conseguiriam fazer. Acho que, neste caso, Karl Krauss responde com mais clareza do que eu: “Que é a Nona Sinfonia (de Beethoven) comparada a uma canção popular tocada por um realejo e por uma lembrança?”.
- Na expressão de Bergson, você seria, pelo que posso concluir lendo seus textos, uma “alma aberta”, um homem que olha para o céu, que, para usar uma expressão do Olavo, encontrou a “consciência da imortalidade”. Como se dá a sua relação com Deus e com o fato de ser escritor?
A minha relação com Deus se dá da mesma forma com que Tom Stoppard lida com isso quando perguntam sobre este tema: “Eu sempre olho por cima do meu ombro para ver se não tem alguém me vigiando”.
- E a “nova direita”? Existe? É necessária?
Já respondi sobre isso, creio eu, no hangout que fiz com o Luiz Fernando Alves, o Louis. Se ela existe? Mas como algo pode existir se não há mais política no Brasil? Se é necessária? Enquanto eles se deixarem fascinar pelo embate entre Leviatã e Behemoth, todos ficarão presos naquilo que T. S. Eliot chamava de “wilderness of mirrors”, a vastidão dos espelhos.
- Talvez eu esteja sendo ousado ao perguntar isso, mas e a Dicta? O que aconteceu?
Se vocês quiserem saber mais sobre isso, terão de esperar mais quatro anos e comprar o meu romance, que será editado por Carlos Andreazza, da Record. Lá, vocês saberão tudo sobre os dois assuntos mais importantes do mundo, segundo o poeta Joseph Brodsky: fofoca e metafísica.
- Nas redes sociais circulou a informação de que você teria sido contratado pela Record para escrever um romance. Você já publicou alguns contos na internet. Você tem algum escrito de ficção guardado em algum “baú”? Como é seu processo de escrita?
Tenho vários livros prontos para ser publicados. Mas eu preciso prepará-los decentemente – e isso me toma tempo, algo que me anda escasso nesses dias. Por isso eu arrumo esses contratos com várias editoras ao mesmo tempo; sou como o Duke Ellington: “I don’t need time, I need a deadline”.
E como é o meu processo de escrita? Muito simples: acordo cedo toda a manhã, ligo o computador e começo a escrever o texto que tenho de entregar no prazo. Se eu tiver duas páginas minimamente decentes, me considero um homem feliz nas próximas vinte e quatro horas.